Patrono 2017 - Paulo Flávio Ledur

terça-feira, 1 de maio de 2018

Saudação de Paulo Flávio Ledur a Ariane Severo

Saudação de Paulo Flávio Ledur, por ocasião da transmissão de cargo de Patrono a escritora Ariane Severo, escritora caçapavana Patrona da Feira do Livro de 2018:
Escritor Paulo Ledur, imagem de Juliano Porto
1. Minha ligação com a Feira do Livro de Caçapava

Minha ligação com Caçapava do Sul, em especial com sua Feira do Livro, já soma mais de 20 anos. Em cerca de dez ocasiões, fui distinguido com convites para palestras, oficinas e cursos. Desde aquele primeiro “ô de casa”, criou-se em mim o sentimento de cidadão caçapavano, de pertencer a esta linda comunidade.

Tudo isso culminou com a homenagem cultural máxima que um caçapavano pode almejar: ser patrono da Feira do Livro de Caçapava do Sul. Foi exatamente isso que meus amigos desta terra reservaram para mim no ano passado, o que me fez sentir o mais feliz dos conterrâneos.

Desde a minha primeira participação neste evento fui alimentando a sensação que virou convicção: a Feira do Livro de Caçapava do Sul é a mais organizada, autêntica, abrangente e popular do interior do Rio Grande do Sul. Justifico:

Primeiro: é a mais organizada, porque realizada por uma equipe coesa formada por voluntários da cultura do Município e que se autoconstituiu, não havendo qualquer ato formal que a nomeasse. Uma equipe que há mais de dez anos espontaneamente se submete à natural liderança de seu coordenador, Pedro Vanolin. Uma equipe em que não há disputa de espécie alguma. Uma equipe movida a entusiasmo em que cada um tem suas funções a cumprir. Uma equipe em que todos se dão as mãos. Uma equipe que sabe granjear o apoio dos diversos segmentos comunitários que compõem a sociedade caçapavana, incluindo a Igreja Católica, que cede gratuitamente este importante espaço, e de outras confissões religiosas. Uma equipe que conquistou o apoio dos poderes Executivo e Legislativo do Município. Uma equipe com o entusiasmo dos amadores, mas organizada dentro das melhores técnicas de administração. É óbvio que um evento assim conduzido só pode primar pela organização.

Segundo: é a mais autêntica, porque tem como foco principal os valores culturais do Município e da região em que este está inserido. Todas as manifestações culturais típicas desta terra são convidadas a participar. Prova isso também a escolha do patrono, que a cada dois anos recai sobre algum escritor do Município, como é o caso deste ano.

Terceiro: é a mais abrangente. Durante o período de realização do evento, passam por aqui não apenas as letras representadas pelos escritores e sua obras, mas também a música, o teatro e a dança, em suas variadas formas, são aqui contemplados. A educação está sempre aqui de corpo e alma, certamente como a área mais beneficiada pelo evento, graças ao indispensável objetivo pedagógico de termos estudantes leitores. Também a saúde e as importantes ações sociais desenvolvidas no Município, como é o caso da APAE, participam ativamente. Outro bem essencial na vida do cidadão caçapavano é o cultivo da espiritualidade, representada aqui por variadas crenças, em desejável convivência ecumênica.

Quarto: é a mais popular, pois está de portas abertas a todos os cidadãos, não distinguindo qualquer segmento social, econômico, de credo, de raça ou outra forma qualquer de discriminação. São espetáculos culturais diários de variada ordem, colocados gratuitamente à disposição de todos, caçapavanos ou não.

2. Saudação à patrona Ariane Severo

Por fim, minha saudação muito especial e carinhosa à escritora e psicanalista ARIANE SEVERO, ilustre filha desta terra e mais uma prova de que a fruta não cai longe do pé, já que integra família de importantes intelectuais, como o tio José Antônio Severo, patrono da 26.ª edição desta Feira, e o pai, Rivadávia Severo, que também já foi patrono. Passar à Ariane honraria tão especial como a de Patrona da Feira do livro de Caçapava do Sul, além de significar para mim extraordinário privilégio e incomparável prazer, é também uma oportunidade ímpar de testemunhar publicamente minha admiração pelo fulminante crescimento que ela alcançou nos últimos anos como escritora hoje plenamente afirmada nas letras rio-grandenses e brasileiras, conquista que atribuo não apenas a dotes naturais inscritos em seu DNA, mas, sobretudo, ao seu entusiasmo e denodo no cultivo da estética literária e no estudo das grandes causas que movem a humanidade.

Prova maior disso é seu último livro: NINA, Desvendando Chernobyl, uma narrativa marcante desenvolvida em torno do desastre que representou o vazamento, em 1986, na Usina Nuclear de Chernobyl, na então União Soviética. Foi uma das maiores tragédias vividas pela humanidade, que matou centenas de milhares de pessoas e deixou terríveis sequelas para os próximos milênios.

Com rara desenvoltura, lançando mão da psicanálise e dominando por inteiro a arte literária, Ariane desvenda os mais íntimos rincões da alma humana, revelando profundos, doloridos e aparentemente imperceptíveis sentimentos que mexem com as sutilezas da dignidade humana.

A preocupação da Ariane em torno das tristes consequências de tragédias como a de Chernobyl se estende a outras áreas do mundo, como o Japão, onde, em 2011, ocorreu o acidente nuclear de Fukushima, e chega ao nosso país, fixando-se no desastre de Mariana, mas não deixando de passar pelo acidente radiológico ocorrido em Goiânia em 1987.

Pelo nível estético do texto, pela abordagem que faz e pelas emoções que provoca no leitor, tenho a profunda convicção de que Nina fará a trajetória que só as grandes obras literárias podem alcançar.

Mas, esta é apenas uma das diversas obras da autora aqui homenageada, como revela a sucinta biografia publicada numa das abas do livro. Apesar disso, tenho a clara sensação de que a carreira literária de Ariane Severo está apenas começando. O que produziu até esta data é apenas um espelho da brilhante carreira literária que está sendo traçada.

Por isso e pelos sentimentos de respeito, admiração e amizade que nutro por Ariane Severo, é com muito orgulho que lhe transfiro o comando do patronato da Feira do Livro de Caçapava do Sul.

Muito obrigado, caçapavanos!

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